Faço aqui uma pausa no trabalho para não dar em doido. Não só por estar a escrever, neste preciso instante, sobre «patologia vulvar e vaginal na adolescência», mas também porque estou a fazê-lo sob o ruído ensurdecedor de um berbequim, manejado por um técnico que irrompeu redacção adentro, acompanhado por mais 2 ou 3 tipos com ar de maus. A entrada foi de tal forma rompante que me fez questionar, momentaneamente, toda a minha existência e das 237 mulheres com quem, até hoje, convivi de forma peculiar e excitante.
Fiquei com a leve sensação de que o homem do berbequim terá ficado com uma má impressão sobre a minha pessoa. Reparei na maneira desconfiada como olhou para o monitor do meu computador, onde constava - em fonte Arial, tamanho 12 - a seguinte mensagem:
«(...) não se pode recorrer aos meios utilizados habitualmente para as mulheres adultas (i.e., exame com espectro e toque vaginal), mas poderá ser, no entanto, necessária a vaginoscopia – que é dolorosa e, como tal, realizada sob anastesia geral».
Das duas, uma: ou ele pensa que sou tarado sexual (o que não deverá andar muito longe da verdade) ou então guarda más recordações da última vaginoscopia que realizou. Não é de excluir também a possibilidade de ele me querer como ginecologista da esposa. Basta olhar para mim e constatar que eu sou todo arte, sapiência, profissional exímio, médico. O meu nome não foi escolhido, aliás, por mero acaso; foi uma espécie de tributo a um médico que residia lá na aldeia, nos idos anos de 1970.
A (des)propósito: estou a ler actualmente um livro espectacular. Dá pelo nome de «A Tradução» (Pablo de Santis, edições ASA) e versa sobre um grupo de linguístas que se reunem num congresso em Puero Esfinge. Entretanto, são cometidos vários crimes e Miguel De Blast, o protagonista, consegue ser, ao mesmo tempo, suspeito e investigador. Em poucas palavras: uma bela história de amor (Miguel tem uma paixão intensa por Ana, cujas pistas a remetem para a autoria dos crimes), repleta de mistério, sangue, cadáveres e muitas referências bibliográficas - ou não fossem todas as personagens tradutores de romances e obras afins. Aposto que até o gajo do berbequim ia adorar esta merda.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Coisas
Contaram-me que a Soraia Chaves está com um corpinho de comer e chorar por mais. Que tem aspecto de Ferrero Rocher e não sei quê. Quem me disse isto foi um amigo que admitiu ter visto na TVI, ontem à noite, o «Call Girl». Tive pena de não ver. Mas, muito provavelmente, estaria dedicado a algum projecto pessoal do calibre das maminhas da Soraia Chaves.
Aposto que os puritanos do costume já estão a pensar que este blog está a destoar. É verdade. Mas o que querem? Vislumbra-se uma semana comprida pela frente. Ainda nem acabei de mastigar as passas do fim de ano e já estou de regresso ao trabalho. O período entre o Natal e o fim de ano deveria durar, no mínimo, uns 5 meses. Assim, dava tempo de um gajo se recompôr da indigestão do bacalhau e das bebidas espirituosas.
Apetecia-me ir até à Papua Nova Guiné e ficar por lá umas semanas, na apanha dos caracóis. Isso e dançar o samba, com as minhas colegas do trabalho, todos desnudados, durante largas noites, à luz da fogueira e debaixo das palmeiras. Mesmo sem a Soraia Chaves. Eu sei que elas passam a vida a pensar nisto. Qualquer dia têm de perder o orgulho. Ou isso ou continuarão infelizes.
Aposto que os puritanos do costume já estão a pensar que este blog está a destoar. É verdade. Mas o que querem? Vislumbra-se uma semana comprida pela frente. Ainda nem acabei de mastigar as passas do fim de ano e já estou de regresso ao trabalho. O período entre o Natal e o fim de ano deveria durar, no mínimo, uns 5 meses. Assim, dava tempo de um gajo se recompôr da indigestão do bacalhau e das bebidas espirituosas.
Apetecia-me ir até à Papua Nova Guiné e ficar por lá umas semanas, na apanha dos caracóis. Isso e dançar o samba, com as minhas colegas do trabalho, todos desnudados, durante largas noites, à luz da fogueira e debaixo das palmeiras. Mesmo sem a Soraia Chaves. Eu sei que elas passam a vida a pensar nisto. Qualquer dia têm de perder o orgulho. Ou isso ou continuarão infelizes.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Rabanadas e Buscopan®
E assim cessou mais uma temporada natalícia que, certamente, permanecerá para toda a minha existência, bem fundo do coração. Algo me dizia que estavam criadas as condições para ser um Natal inesquecível, repleto de miminhos e arroz doce. Objectivo cumprido. E, para não destoar, a coisa colidiu mesmo com a noite de consoada. Eram 20h30 e já eu estava nas urgências – diga-se em abono da verdade que, nestas merdas, não gosto de perder tempo; além disso, dizem as regras de etiqueta e de bons costumes que é de extremo mau gosto aparecer tarde e a más horas. Foi assim que os lixei. Auxiliares, enfermeiros e médicos na boa vida (bem os vi, a todos, com bolo rei e rabanadas no canto da boca), num hospital que mais parecia um hotel fantasma (é oficial: noites de consoada e em que joga o Benfica são as melhores para check-ups, visitas e exames de rotina).
Valeu-me a paciência e a sabedoria do Dr. Igor Kalashnikov (ou algo parecido; fui incapaz de lhe fixar o apelido, mas tenho a certeza que soava a instrumento bélico), proveniente de um qualquer país do leste. Estou-me nas tintas para a nacionalidade do homem, até porque – mesmo não me tendo ofertado qualquer sorriso ao longo da noite (por momentos, quis-me parecer que estaria a ser atendido por um humanóide sem emoções) –, a realidade é esta: fez-me uma apalpação abdominal tão boa que, por breves instantes, me fez esquecer como é bom gostar de mulheres. Umas mãos daquelas não deviam andar assim, à mercê das administrações hospitalares, a desenrascar urgências. Aquilo era coisa para estar num SPA. Ou, vá lá, na minha casa (e a tempo inteiro).
Mas quando a esmola é muita o pobre desconfia. Depois do questionário clínico e da apalpação memorável, toca a fazer análises ao sangue – logo eu, que tenho um pavor a agulhas (se fosse dependente da heroína, acho que estaria, basicamente, fodido). E já que o enfermeiro iria estar com a mão na massa, o melhor seria administrar de seguida uma bela dose de Buscopan® na veia. Dizia-me o gajo, após me ter sugado metade do sangue que circulava neste corpinho: «tem é que ser devagar, porque senão o medicamentozinho não faz efeito». Foda-se. Uma eternidade naquela merda. Ainda por cima, com um enfermeiro que nada ficava a dever a essa paneleiragem que grassa por aí, neste mundinho cão e cruel. E depois o «medicamentozinho» tem um efeito giro: um gajo tenta focar ao perto, mas, em bom rigor, não vê um boi.
Há sempre um lado positivo. No caso em apreço – e por causa de mim –, ficaram justificados os ordenados do pessoal de serviço. Aliás, por causa de mim e da velhota (dar-lhe-ia uns 80 anos) que deu entrada, às 23h e tal, com queimaduras de 2.º grau. Aí, sim, confesso que tive mesmo pena do que vi (desfocadamente, mas vi): a senhora vivia sozinha, passou a consoada consigo própria e queimou-se com um saco de borracha, daqueles que levam água quente. Pior: ainda arranjou forças, no fim daquilo tudo, para aplicar benzina e uma pomada (que já nem sequer se vende em Portugal) em cima das mazelas. Estava de tal modo pálida que nem uma só palavra lhe saia da boca. Nem se sentia no direito de expressar as dores intensas que lhe percorriam o corpo inteiro. Admito que sai, já de madrugada, mais aliviado das dores – mas, seguramente, com o coração despedaçado.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
O tempo é o agora
«O tempo que já foi é perdido e o que está para vir é incerto. A única forma de fintá-lo é talvez assumindo que o tempo é o agora. Não deixando nada para amanhã, não adiando. Seja, faça, diga, pense, vá, comece, acabe, pergunte, responda, procure, encontre, dedique, aproveite, ame… HOJE! Não é fácil… Mas também ninguém disse que o seria. É a luta de uma vida e não vai ganhar a guerra… Mas pode vencer muitas batalhas se valorizar e aproveitar o tempo que tem neste exacto momento.»
«Continuo a achar que o tempo corre... Mas eu corro atrás dele, qual Francis Obikwelu. A ponto de ficarmos a uma curta distância um do outro; de eu conseguir agarra-lo melhor e vê-lo como aliado e não como oponente. A ponto de eu dizer que, embora não me sobre muito, tempo também não me falta. Porque faço sempre por estar/ser/fazer o que quero, com quem quero, onde quero e… quando quero.»
(de alguém que sabe como "espremer" a vida até à última gota)
«Continuo a achar que o tempo corre... Mas eu corro atrás dele, qual Francis Obikwelu. A ponto de ficarmos a uma curta distância um do outro; de eu conseguir agarra-lo melhor e vê-lo como aliado e não como oponente. A ponto de eu dizer que, embora não me sobre muito, tempo também não me falta. Porque faço sempre por estar/ser/fazer o que quero, com quem quero, onde quero e… quando quero.»
(de alguém que sabe como "espremer" a vida até à última gota)
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Os meus santos natais
Estão reunidas as condições para um Natal de merda. A começar pela puta da gripe que resolveu apoderar-se de mim (ao menos que alguma coisa tenha a ousadia para se apoderar de mim...) mesmo no resquício do fim-de-semana. Cheira-me que é coisa para me deitar abaixo mesmo quando estiver a preparar-me para a missa do galo - e sou, por definição, um gajo ultra devoto incapaz de perder uma missa do galo. Agora a sério: adoro padres. Sobretudo aquele que acompanhou o meu crescimento enquanto cristão, na paróquia da província. Esteve lá meia dúzia de anos. Foi até correrem literalmente com ele. Isto porque o senhor prior resolveu enviar uns quadros de valor inestimável para Espanha, à socapa, a pretexto de os recuperar. Resultado: os quadros nunca mais apareceram.
Os natais fazem-me lembrar a minha professora primária (bastante fodida, por sinal). Obrigava os putos a improvisarem uma peça de teatro, com uma forte componente bíblica. Eu, por mim, gostava de fazer de burro. Porque fazia sentido. E não tinha diálogos. Mas os verdadeiros natais foram passados com a minha vizinha. A Carlinha era fogo. Adorava ser a minha rena. Quando tinhamos tempo, também brincávamos. Mas já lá vai o tempo. Hoje, quem quiser estar com a Carlinha tem de pagar (e bem). Nem que seja para brincar. Há anos que não a vejo. É pena. Perdeu-se uma boa rena.
Naqueles tempos, o que mais gostava era de receber as prendas das avós. A cada 25 de Dezembro, pela manhã, fazia-me à estrada na velha bicicleta, na ânsia de açambarcar os presentes. Muito pijama e muita meia recebi eu das velhotas. Mas o que importava mesmo era o que vinha acoplado às peças de vestuário: a notinha de 5 contos. Agora, a Carlinha...
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Natal de adultos ou de miúdos?
Ia comentar o teu post, mas entusiasmei-me...
Concordo contigo. Hoje é um disparate e uma corrida alucinada!! Lembro-me quando era miúda que era assim como dizes: prendas só para os miúdos (éramos três) e prendas úteis (cadernos, lápis, livros)!!
Hoje eu participo nessa corrida alucinada mas não à velocidade a que descreves, mas participo porque os miúdos cresceram e temos há anos um Natal de adultos.
Este é o 2.º ano que vai contar com a presença de uma miúda e 85% das prendas são para ela e úteis. Mas a miúda só está connosco no dia de Natal e não passa "a meia-noite" e nós habituados que estamos a rasgar o papel de embrulho das prendas aproveitamos os 15% para as prendas dos adultos. E são úteis e outras para safar e outras quase por obrigação. Mas é uma roda viva e nessa noite somos todos miúdos (piores que miúdos).
Também te posso dizer que esta tradição de prendas entre adultos surgiu quando os três miúdos se tornaram adultos, com responsabilidades e dinheiro para poder comprar e oferecer. Depois de crescerem não acharam justo só eles receberem (por ainda serem os mais novos) e resolveram começar a comprar para dar aos outros.
E foram os três que iniciaram a troca de prendas entre todos - adultos - sem faltar um!
Hoje há uma miúda, mas os adultos dão aos adultos também (e vai de um pai natal de chocolate a algo que alguém precisa mesmo nesta altura e canaliza-se para prenda de Natal).
Cada um dos adultos faz de Pai Natal e as bochechas vermelhas não são pintadas! Afinal, somos adultos e fazemos muitos brindes ao jantar!!
Rimos muito e adoramos rasgar o papel de embrulho das prendas!!!!!!
Concordo contigo. Hoje é um disparate e uma corrida alucinada!! Lembro-me quando era miúda que era assim como dizes: prendas só para os miúdos (éramos três) e prendas úteis (cadernos, lápis, livros)!!
Hoje eu participo nessa corrida alucinada mas não à velocidade a que descreves, mas participo porque os miúdos cresceram e temos há anos um Natal de adultos.
Este é o 2.º ano que vai contar com a presença de uma miúda e 85% das prendas são para ela e úteis. Mas a miúda só está connosco no dia de Natal e não passa "a meia-noite" e nós habituados que estamos a rasgar o papel de embrulho das prendas aproveitamos os 15% para as prendas dos adultos. E são úteis e outras para safar e outras quase por obrigação. Mas é uma roda viva e nessa noite somos todos miúdos (piores que miúdos).
Também te posso dizer que esta tradição de prendas entre adultos surgiu quando os três miúdos se tornaram adultos, com responsabilidades e dinheiro para poder comprar e oferecer. Depois de crescerem não acharam justo só eles receberem (por ainda serem os mais novos) e resolveram começar a comprar para dar aos outros.
E foram os três que iniciaram a troca de prendas entre todos - adultos - sem faltar um!
Hoje há uma miúda, mas os adultos dão aos adultos também (e vai de um pai natal de chocolate a algo que alguém precisa mesmo nesta altura e canaliza-se para prenda de Natal).
Cada um dos adultos faz de Pai Natal e as bochechas vermelhas não são pintadas! Afinal, somos adultos e fazemos muitos brindes ao jantar!!
Rimos muito e adoramos rasgar o papel de embrulho das prendas!!!!!!
Um conceito de Natal e do sentido da vida
E é isto. Todos os anos, por esta altura, corremos feitos malucos para o centro comercial, em bandos, a comprar o que não podemos - quando o que deviamos fazer, na realidade, era oferecer mais sorrisos e consolo (que ficam bem mais baratos e rejuvenescem a alma de que os recebe). Mas não. Adoramos o cartãozinho de crédito. É ver quem dá a prenda maior. No que toca às prendas para as crianças da família, então, é a puta da loucura: estamos aptos a gastar uma pipa de massa pelo último grito dos carros telecomandados ou pela versão mais actual da Barbie na casa de alterne - mesmo que andemos por aí a cair aos bocados, desdentados, a pagar a casa, o carro, o frigorífico, a casota do cão, a ração do gato. Nada disto faz sentido. E a culpa, em última instância, é sempre nossa. Desde cedo que os habituamos mal. Impingimos o espírito consumista dentro do próprio lar, afogando os miúdos com pedaços de plástico industrial transformados em brinquedos, made in China, concebidos por trabalhadores que têm idade para andar na escola. Todos os dias deviamos parar e pensar um bocadinho nestas merdas. Mas não temos tempo. Porque temos de ir para a fila dos embrulhos da Toy's'Rus ou do Continente. E depois levamos com a falsidade da Leopoldina, da Popota e de outras que tais, que não passam de mascotes fabricadas por marketeers, mascaradas de anjinhos bem intencionados que se desdobram em missões sorriso e coisas do género - mas que, em boa verdade, não são mais do que uma forma de pôr as figuras públicas a dar a cara pelas marcas de grandes grupos económicos. Mas disto todos sabemos e, mesmo assim, lá vamos nós para a fila dos embrulhos.
Na minha casa, é muito simples. Há prendas, claro que há. Mas só para os mais pequenos. E livros, não mais do que isso. Ainda ontem, por exemplo, dei de caras com a minha filha sentada no sofá, sozinha, a folhear um prontuário da Língua Portuguesa e a inventar histórias (como aquelas que o pai e a mãe lhe contam aquando da hora de deitar). Não é mais inteligente do que as outras crianças, com toda a certeza. Aquele momento revela, antes, o esforço de dois pais preocupados e que, quando crianças, queriam ter um livro de banda desenhada e não o tinham. Nem sequer era uma pistola de água ou uma boneca: era apenas um simples livro.
Nos dias de hoje, falta, em muitas casas, a consciência do que é ter pouco. Os miúdos nascem já com o Magalhães e a internet acoplados ao cordão umbilical. Tudo lhes é mostrado - quando deviam ser eles a descobrir o mundo. Pensamos que é por ali o caminho, sem pensarmos que estamos a direccioná-los para o abismo. Assim se tecem as malhas do egoísmo. Estamos a produzir pequenos robots em série, incapazes de actuar e a pensar perante um determinado imprevisto. Bem-vindos aos novos tempos.
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