segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
hoje vou fazer um post assim bem ao estilo do acatar, que é uma coisa que depois descrevo mais abaixo e o camandro
só que para isto ser perfeito eu tinha de colocar aqui uns impropérios do caralho, que é para o post ficar mesmo, mesmo, mesmo, mesmo parecido com o acatar, que é um blog feito por um tanso que, quando convida amigos para jantar em casa, não tem sequer cerveja em doses minimamente aceitáveis. se querem mesmo que vos diga, esse jantar pôs-me fodido da vida, até porque tinha sérias esperanças em ficar pelo menos com metade do recheio da casa, que é como quem diz 30 livros, nos quais se incluem o tal livro de âmbito comercial de 1909 ou lá o que era aquela merda. acho que já me estou mas é a alongar demais ou o caralho e é melhor pôr um ponto final nisto.
mas não sem antes dizer que o estilo acatar é-me familiar, juro que andei meses e meses a pensar nesta merda, e só cheguei a uma conclusão após ter passado por aqui, que é o blog do irmão lúcia. já sei que me vão dizer que o estilo não tem nada a ver e o caralho, mas a mim o panasca plagiador do acatar não me engana e a prova disso mesmo é o post que escolhi do irmão lúcia para dar consistência à minha tese.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Rua da saudade
No post abaixo, o digníssimo J. Madureira teve a bondade de ofertar umas palavras deliciosas, através de um comentário, que deixam qualquer bom garfo a salivar. Assim, sem apelo nem agravo, eis que a bela sardinha assada surge de rompante, a galope de um pão alentejano. Imagino-lhe (a sardinha) a entranhar-se nele (no pão), deixando um pequeno rasto com todo o sabor do mar. E lá está: a nostalgia. Sempre a nostalgia... Uma das melhores sardinhadas que comi (teria eu 7 ou 8 anos) aconteceu debaixo de duas figueiras centenárias, que faziam sobra à casa dos meus bisavós. Foi em pleno Verão, depois de uma manhã inteira dedicada à vindima. Ainda hoje, quando o cheiro da sardinha assada me invade as narinas, recordo esse momento (curto, mas intenso) com saudosismo. E surgem, por acréscimo, as saudades das tardes de Verão sem fim, das cabanas improvisadas à beira do riacho, os longos passeios de bicicleta onde se rodavam quilómetros e quilómetros... segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
As marcas do tempo
O estalido da lenha que arde na lareira; a cafeteira com água para o café a aquecer no braseiro; o pão em riste, espetado num garfo, para ir torrando ao sabor do calor do braseiro; o velho transístor a captar a emissão radiofónica matinal, vinda de longe; um «até logo» ensonado dito ao avô e à avó; a estrada de terra percorrida na obsoleta bicicleta, companheira de toda uma infância, rumo à escola e a pisar o gelo que abafa a erva daninha junto à berma; os jantares de sábado em família; o frango do campo assado na brasa; a matança do porco durante dois dias, com tempo para a pesca e para a apanha de cogumelos selvagens; as festas na aldeia; o dia em que o circo vem à aldeia; as brincadeiras sem fim no dia em que a professora primária adoece; a vindima e os saltos no lagar noite adentro; a euforia das manhãs de Natal...quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Na espuma dos dias: intervalo breve
Fiquei com a leve sensação de que o homem do berbequim terá ficado com uma má impressão sobre a minha pessoa. Reparei na maneira desconfiada como olhou para o monitor do meu computador, onde constava - em fonte Arial, tamanho 12 - a seguinte mensagem:
«(...) não se pode recorrer aos meios utilizados habitualmente para as mulheres adultas (i.e., exame com espectro e toque vaginal), mas poderá ser, no entanto, necessária a vaginoscopia – que é dolorosa e, como tal, realizada sob anastesia geral».
Das duas, uma: ou ele pensa que sou tarado sexual (o que não deverá andar muito longe da verdade) ou então guarda más recordações da última vaginoscopia que realizou. Não é de excluir também a possibilidade de ele me querer como ginecologista da esposa. Basta olhar para mim e constatar que eu sou todo arte, sapiência, profissional exímio, médico. O meu nome não foi escolhido, aliás, por mero acaso; foi uma espécie de tributo a um médico que residia lá na aldeia, nos idos anos de 1970.
A (des)propósito: estou a ler actualmente um livro espectacular. Dá pelo nome de «A Tradução» (Pablo de Santis, edições ASA) e versa sobre um grupo de linguístas que se reunem num congresso em Puero Esfinge. Entretanto, são cometidos vários crimes e Miguel De Blast, o protagonista, consegue ser, ao mesmo tempo, suspeito e investigador. Em poucas palavras: uma bela história de amor (Miguel tem uma paixão intensa por Ana, cujas pistas a remetem para a autoria dos crimes), repleta de mistério, sangue, cadáveres e muitas referências bibliográficas - ou não fossem todas as personagens tradutores de romances e obras afins. Aposto que até o gajo do berbequim ia adorar esta merda.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Coisas
Aposto que os puritanos do costume já estão a pensar que este blog está a destoar. É verdade. Mas o que querem? Vislumbra-se uma semana comprida pela frente. Ainda nem acabei de mastigar as passas do fim de ano e já estou de regresso ao trabalho. O período entre o Natal e o fim de ano deveria durar, no mínimo, uns 5 meses. Assim, dava tempo de um gajo se recompôr da indigestão do bacalhau e das bebidas espirituosas.
Apetecia-me ir até à Papua Nova Guiné e ficar por lá umas semanas, na apanha dos caracóis. Isso e dançar o samba, com as minhas colegas do trabalho, todos desnudados, durante largas noites, à luz da fogueira e debaixo das palmeiras. Mesmo sem a Soraia Chaves. Eu sei que elas passam a vida a pensar nisto. Qualquer dia têm de perder o orgulho. Ou isso ou continuarão infelizes.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Rabanadas e Buscopan®
E assim cessou mais uma temporada natalícia que, certamente, permanecerá para toda a minha existência, bem fundo do coração. Algo me dizia que estavam criadas as condições para ser um Natal inesquecível, repleto de miminhos e arroz doce. Objectivo cumprido. E, para não destoar, a coisa colidiu mesmo com a noite de consoada. Eram 20h30 e já eu estava nas urgências – diga-se em abono da verdade que, nestas merdas, não gosto de perder tempo; além disso, dizem as regras de etiqueta e de bons costumes que é de extremo mau gosto aparecer tarde e a más horas. Foi assim que os lixei. Auxiliares, enfermeiros e médicos na boa vida (bem os vi, a todos, com bolo rei e rabanadas no canto da boca), num hospital que mais parecia um hotel fantasma (é oficial: noites de consoada e em que joga o Benfica são as melhores para check-ups, visitas e exames de rotina).
Mas quando a esmola é muita o pobre desconfia. Depois do questionário clínico e da apalpação memorável, toca a fazer análises ao sangue – logo eu, que tenho um pavor a agulhas (se fosse dependente da heroína, acho que estaria, basicamente, fodido). E já que o enfermeiro iria estar com a mão na massa, o melhor seria administrar de seguida uma bela dose de Buscopan® na veia. Dizia-me o gajo, após me ter sugado metade do sangue que circulava neste corpinho: «tem é que ser devagar, porque senão o medicamentozinho não faz efeito». Foda-se. Uma eternidade naquela merda. Ainda por cima, com um enfermeiro que nada ficava a dever a essa paneleiragem que grassa por aí, neste mundinho cão e cruel. E depois o «medicamentozinho» tem um efeito giro: um gajo tenta focar ao perto, mas, em bom rigor, não vê um boi.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
O tempo é o agora
«Continuo a achar que o tempo corre... Mas eu corro atrás dele, qual Francis Obikwelu. A ponto de ficarmos a uma curta distância um do outro; de eu conseguir agarra-lo melhor e vê-lo como aliado e não como oponente. A ponto de eu dizer que, embora não me sobre muito, tempo também não me falta. Porque faço sempre por estar/ser/fazer o que quero, com quem quero, onde quero e… quando quero.»
(de alguém que sabe como "espremer" a vida até à última gota)
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Os meus santos natais
Estão reunidas as condições para um Natal de merda. A começar pela puta da gripe que resolveu apoderar-se de mim (ao menos que alguma coisa tenha a ousadia para se apoderar de mim...) mesmo no resquício do fim-de-semana. Cheira-me que é coisa para me deitar abaixo mesmo quando estiver a preparar-me para a missa do galo - e sou, por definição, um gajo ultra devoto incapaz de perder uma missa do galo. Agora a sério: adoro padres. Sobretudo aquele que acompanhou o meu crescimento enquanto cristão, na paróquia da província. Esteve lá meia dúzia de anos. Foi até correrem literalmente com ele. Isto porque o senhor prior resolveu enviar uns quadros de valor inestimável para Espanha, à socapa, a pretexto de os recuperar. Resultado: os quadros nunca mais apareceram.
Os natais fazem-me lembrar a minha professora primária (bastante fodida, por sinal). Obrigava os putos a improvisarem uma peça de teatro, com uma forte componente bíblica. Eu, por mim, gostava de fazer de burro. Porque fazia sentido. E não tinha diálogos. Mas os verdadeiros natais foram passados com a minha vizinha. A Carlinha era fogo. Adorava ser a minha rena. Quando tinhamos tempo, também brincávamos. Mas já lá vai o tempo. Hoje, quem quiser estar com a Carlinha tem de pagar (e bem). Nem que seja para brincar. Há anos que não a vejo. É pena. Perdeu-se uma boa rena.
Naqueles tempos, o que mais gostava era de receber as prendas das avós. A cada 25 de Dezembro, pela manhã, fazia-me à estrada na velha bicicleta, na ânsia de açambarcar os presentes. Muito pijama e muita meia recebi eu das velhotas. Mas o que importava mesmo era o que vinha acoplado às peças de vestuário: a notinha de 5 contos. Agora, a Carlinha...
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Natal de adultos ou de miúdos?
Concordo contigo. Hoje é um disparate e uma corrida alucinada!! Lembro-me quando era miúda que era assim como dizes: prendas só para os miúdos (éramos três) e prendas úteis (cadernos, lápis, livros)!!
Hoje eu participo nessa corrida alucinada mas não à velocidade a que descreves, mas participo porque os miúdos cresceram e temos há anos um Natal de adultos.
Este é o 2.º ano que vai contar com a presença de uma miúda e 85% das prendas são para ela e úteis. Mas a miúda só está connosco no dia de Natal e não passa "a meia-noite" e nós habituados que estamos a rasgar o papel de embrulho das prendas aproveitamos os 15% para as prendas dos adultos. E são úteis e outras para safar e outras quase por obrigação. Mas é uma roda viva e nessa noite somos todos miúdos (piores que miúdos).
Também te posso dizer que esta tradição de prendas entre adultos surgiu quando os três miúdos se tornaram adultos, com responsabilidades e dinheiro para poder comprar e oferecer. Depois de crescerem não acharam justo só eles receberem (por ainda serem os mais novos) e resolveram começar a comprar para dar aos outros.
E foram os três que iniciaram a troca de prendas entre todos - adultos - sem faltar um!
Hoje há uma miúda, mas os adultos dão aos adultos também (e vai de um pai natal de chocolate a algo que alguém precisa mesmo nesta altura e canaliza-se para prenda de Natal).
Cada um dos adultos faz de Pai Natal e as bochechas vermelhas não são pintadas! Afinal, somos adultos e fazemos muitos brindes ao jantar!!
Rimos muito e adoramos rasgar o papel de embrulho das prendas!!!!!!
Um conceito de Natal e do sentido da vida
E é isto. Todos os anos, por esta altura, corremos feitos malucos para o centro comercial, em bandos, a comprar o que não podemos - quando o que deviamos fazer, na realidade, era oferecer mais sorrisos e consolo (que ficam bem mais baratos e rejuvenescem a alma de que os recebe). Mas não. Adoramos o cartãozinho de crédito. É ver quem dá a prenda maior. No que toca às prendas para as crianças da família, então, é a puta da loucura: estamos aptos a gastar uma pipa de massa pelo último grito dos carros telecomandados ou pela versão mais actual da Barbie na casa de alterne - mesmo que andemos por aí a cair aos bocados, desdentados, a pagar a casa, o carro, o frigorífico, a casota do cão, a ração do gato. Nada disto faz sentido. E a culpa, em última instância, é sempre nossa. Desde cedo que os habituamos mal. Impingimos o espírito consumista dentro do próprio lar, afogando os miúdos com pedaços de plástico industrial transformados em brinquedos, made in China, concebidos por trabalhadores que têm idade para andar na escola. Todos os dias deviamos parar e pensar um bocadinho nestas merdas. Mas não temos tempo. Porque temos de ir para a fila dos embrulhos da Toy's'Rus ou do Continente. E depois levamos com a falsidade da Leopoldina, da Popota e de outras que tais, que não passam de mascotes fabricadas por marketeers, mascaradas de anjinhos bem intencionados que se desdobram em missões sorriso e coisas do género - mas que, em boa verdade, não são mais do que uma forma de pôr as figuras públicas a dar a cara pelas marcas de grandes grupos económicos. Mas disto todos sabemos e, mesmo assim, lá vamos nós para a fila dos embrulhos.
Na minha casa, é muito simples. Há prendas, claro que há. Mas só para os mais pequenos. E livros, não mais do que isso. Ainda ontem, por exemplo, dei de caras com a minha filha sentada no sofá, sozinha, a folhear um prontuário da Língua Portuguesa e a inventar histórias (como aquelas que o pai e a mãe lhe contam aquando da hora de deitar). Não é mais inteligente do que as outras crianças, com toda a certeza. Aquele momento revela, antes, o esforço de dois pais preocupados e que, quando crianças, queriam ter um livro de banda desenhada e não o tinham. Nem sequer era uma pistola de água ou uma boneca: era apenas um simples livro.
Nos dias de hoje, falta, em muitas casas, a consciência do que é ter pouco. Os miúdos nascem já com o Magalhães e a internet acoplados ao cordão umbilical. Tudo lhes é mostrado - quando deviam ser eles a descobrir o mundo. Pensamos que é por ali o caminho, sem pensarmos que estamos a direccioná-los para o abismo. Assim se tecem as malhas do egoísmo. Estamos a produzir pequenos robots em série, incapazes de actuar e a pensar perante um determinado imprevisto. Bem-vindos aos novos tempos.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
(Tempo)
Pára o tempo do vento que é o contratempo da nossa demora
Passam dias e noites, os meses, os anos, o segundo e a hora
E ao tempo presente é que a gente pergunta e agora e agora?
Tempo para pensar cada momento deste tempo
Que cada dia é mais profundo e é mais tempo
Para inventarmos outro tempo menos lento
Tempo dos nossos filhos aprenderem com mais tempo
A rapidez que tem de ser o pensamento
Para nascer, para viver, para existir
E nunca mais verem o tempo fugir
Ai o tempo constante que a cada instante nos passa por fora
Este tempo candente que é como um cometa com laivos de aurora
É o tempo de hoje, é o tempo de ontem, é o tempo de outrora
Mas o tempo da gente é o tempo presente, é agora é agora
Tempo para agarrar cada momento deste tempo
Interminável e absoluto rasgo o tempo
Num temporal com os ponteiros do minuto
Tempo para um relógio bater certo com a vida
De um homem bom, de um homem são, de um homem forte
Que da chegada conseguir fazer partida
E que desperta adiantado para a morte
José Carlos Ary dos Santos
domingo, 13 de dezembro de 2009
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Gravedigger
When you dig my grave
Could you make it shallow
So that I can feel the rain
Gravedigger
Gosto deste refrão
O autor é o Dave Mathews.
Para ouver, aqui.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Amor eterno
Conheço-a à pouco mais de uma década. Sempre foi muito bela. Desde o primeiro momento que a vi que senti este amor. Não se trata do “amor à primeira vista”, o clássico, o dos filmes. Trata-se de algo tão profundo que não é fácil descrevê-lo. Certo é, que os grandes amores, de uma maneira geral não são sentimentos de fácil descrição. Por vezes, nem nós próprios sabemos o que sentimos. Mas de facto, sabemos que sentimos algo sem no entanto o sabermos descrever.
Sobre o meu amor, quando a vi pela primeira vez, senti que este amor seria eterno. Foi tão forte, tão intenso, que quando o recordo, me emociono. Ficou-me no coração a primeira imagem, o primeiro momento e, se Deus quiser, nunca mais o esquecerei.
Dormia ao de leve, serena, envolta num manto branco. Toquei-lhe aos poucos na face, devagarinho, fiquei maravilhado. A sua beleza era única, nunca tinha visto uma mulher assim. A sua pele era lisa e fresca e os olhos, em repouso, pareciam dois riscos em arco, sorridentes e calmos. No centro da face, altivo, um nariz de petiz, arrebitado. Dos seus lábios recordo apenas a perfeição, recordo o delineado e curvilíneo acre, numa composição de pleno e de belo, um quadro que me encantou. Ao segurar-lhe a mão delicada, imediatamente apertou os seus dedos nos meus e suspirou quase sem se notar. Ainda sem o saber, ela sentia o mesmo por mim.
É eterno este nosso amor. É gratificante, é inspirador, renova energias e dá alento. Dá-me forças e por ela, asseguro-vos, movo montanhas e combato dragões, enfrento centúrias romanas e sem dúvida, sem a mínima dúvida, sem hesitações, troco a minha vida pela dela agradecendo, de seguida, a oportunidade.
Sobre a beleza do meu grande amor, o mundo poderá discordar, mas é isto que sinto pela minha filha e sobre isso, lamento, mas não há volta a dar!
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Volumetria
Todos os dias cruzamo-nos. Bem vejo como elas me tentam. Baloiçam a cada passo e marcam o ritmo do meu dia. As maminhas da chefe são a minha rosa dos ventos. Estão ali mesmo à mão de semear. É frustrante olhar para o cardápio quando não se pode tocar no presunto (daí, aliás, que o fruto proibido seja sempre o mais apetecido). Ainda assim, as vistas não devem ser menosprezadas. Gosto de seios geometricamente bem definidos. Volume q.b. associado a uma fisionomia que, à primeira vista, me parece verosimivelmente perfeita. Dá vontade de lhes saltar em cima, bem em jeito de um trampolim. As maminhas da chefe estão para as minhas mãos como as renas estão para o Pai Natal. Imaginá-las sem mim por perto é como pôr o Pai Natal a fazer um anúncio a um creme de barbear. Simplesmente não faz sentido.
Hoje, notei que a maminha direita estava mesmo disposta a sentir a pressão da minha mão esquerda. Ainda pensei em satisfazer-lhe a vontade, mas, por uma questão de cortesia para com a maminha esquerda, achei por bem manter a mão quieta. Poderia ter avançado com a mão direita, mas isso só iria enfurecer o seio esquerdo. Nada como pacificarmos a questão: é ir em frente com as duas mãos ao mesmo tempo e pronto. Assim também as duas maminhas o queiram.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
A sorte calha-nos à nascença
Há dias conheci uma criança. Não me ficou o seu nome e por isso chamar-lhe-ei Rafael. Terá, se não me falha a apreciação, seis, sete anos. Loirinho, com aquele cabelo semi-encaracolado e jeitos rebeldes, aparentemente indomável que, a meu ver, faz pensar que o petiz é dono de um comportamento tão selvagem como aquele que o seu escalpe aparenta. Mas não. O Rafa (prefiro chamar-lhe assim), desloca-se de forma relativamente lenta. Até ver, as suas pernas demonstram a ausência daquela energia eléctrica que é característica nos miúdos desta idade. Creio que não nasceu com nenhuma deficiência física. Também me pareceu que não nasceu com nenhuma deficiência mental mas, no breve contacto que tive com ele, fiquei convencido que algo não funcionava correctamente dentro daquela cabecinha loira.
Sobre a cabecita loira, observei que a zona da testa fazia lembrar o homem elefante. Era excepcionalmente disforme, assimétrica, demasiado sobranceira, empenada e os seus ossos, cobertos com uma pele que já foi de bebé e que agora apresenta um sem-número de cicatrizes, estão anormalmente disformes. Não articula bem as palavras e com aquela idade ainda se baba ligeiramente. Tem olhos azuis. Tão azuis e tão normais que, neste contexto, quase me fazem chorar.
Quando o cumprimentei, naquele dia, senti uma mão áspera e anatomicamente imperfeita. Não estava bem vestido. Também não estava muito limpo.
Momentos depois, apareceu a mãe. Veio buscá-lo á escola. Abraçou-o quando ele correu para ela, de braços abertos e visivelmente feliz por a ver. Parecia uma mãe normal, igual a tantas outras que pude observar, noutras ocasiões, naquela escola. Nesta senhora destacava-se apenas, e não sei se me vai ser fácil descrever, uma espécie de olhar amoroso, uma atitude carinhosa com tudo e com todos, que se percebe, mas que não é comum.
Mais tarde, alguém me contou a história do Rafa. Diz-se que foi filho de boas famílias. A mãe, que não é a sua, é a dona do colégio para meninos órfãos onde o miúdo vive desde muito bebé. O Rafa não é órfão. As entidades competentes, há uns anos, retiraram-no do seio familiar. Os seus pais, ao invés de dar amor, enchiam-no de pancada, tão violentamente que o desfiguraram e o mutilaram de tal forma que os seus ossos, nomeadamente os da cabeça, assumiram formas diferentes dos das outras crianças. Foi esta a razão que alterou o bom funcionamento do cérebro deste loirinho.
O Rafa teve sorte, esteve quase, mas não morreu.
Uma vez vi o Rafa rir ás gargalhadas. Naquele momento, pareceu-me feliz.
Se acreditarmos que estamos cá no mundo com um propósito, o do Rafa será que é o de nos mostrar, quando estamos tristes achando que tudo é mau, que quando tudo é mau ainda podemos rir?
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
...
Por vezes, a melancolia e a angústia sufocam-me. Mesmo sem motivo aparente. Há dias em que é pela dor física e também por aquela que não se vê. Cada vez percebo menos o mundo. Porque sei que, no fundo, sou honesto, consciente do que sinto, verdadeiro e com vontade de aprender. Sempre. Mas viver todos os dias cansa. Porque sim. Ou porque não.
Apetece-me apanhar a maré vazia. Sozinho. Aguardar que a água vá subindo, até me afogar os sentidos. Está quase. Já sinto a ondulação gélida a debater-se com a minha pele. Estou prestes a fechar os olhos. Já vislumbro os cardumes coloridos e a beleza das algas. Quero ficar aqui para sempre. Mesmo para sempre.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Cruxifiquemos os nosso nacos como se fossem um só
Cada vez que se abeira a mim, toca-me nos sentidos. Reparo em cada contorno do seu corpo. Se este tipo de contemplação está implícita na própria natureza dos homens, então, em mim, parece estar muito mais. Há algo em M. que vai muito para além daquilo que vemos. Talvez a idade e a experiência lhe tenham toldado o sentido da vida e a percepção do mundo em que vivemos. Só assim se pode explicar o seu jeito afável com que nos suporta - sobretudo nos momentos em que estamos com o cio. Contemplar M. é ver as estrelas (mesmo nas noites em que as nuvens encobrem o céu). Admirar a beleza de M. e contabilizar sorrateiramente cada curva do seu corpo esguio e apetecível é apanhar um banho de sol (mesmo nos dias agitados pelo vento, em que troveja, chove e faz frio). Há toda uma estética e maneira de ser que nos faz acreditar que há ainda muito para aprender. Não importa a idade - mas antes aquilo que fazemos com ela. M. merece uma observação científica; um olhar clínico. A mim, sei bem qual o diagnóstico que me faria (e o tratamento que me deveria aplicar. Mas isso são princípios activos que não cabem aqui neste prontuário terapêutico).
M. remete-nos para um mundo de fantasias e sensualidade. Não falo de algo de cariz meramente sexual. Para isso, bastar-me-ia a carne que tenho no talho lá de casa - que sabe bem, diga-se de passagem, e está tenra como nunca; agora que falo nisso, acho que a qualidade dos nacos que tenho comido recentemente supera quaisquer outros de produção biológica ou com Denominação de Origem Protegida.
Mas não nos desviemos do essencial: M. faz-nos bem à vista. Eu, por mim, aprenderia e treinaria toda a essência da linguagem braille com ela. Ou provava um pouco da sua carne. Uma espetada mista era o ideal. Assim, o talho ficaria mais composto e diversificado.


