terça-feira, 27 de abril de 2010

Foda-se! (é uma terapia, segundo os psicólogos)

Senão vejam...


O Foda-se!
de Millôr Fernandes

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional a quantidade de foda-se! que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se!? O foda-se! aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor.

Reorganiza as coisas. Me liberta. Não quer sair comigo?

Então foda-se!. Vai querer decidir essa merda sozinho (a) mesmo? Então foda-se!. O direito ao foda-se! deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Prá caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que Prá caralho? Prá caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas prá caralho, o Sol é quente prá caralho, o universo é antigo prá caralho, eu gosto de cerveja prá caralho, entende? No gênero do Prá caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso Nem fodendo!. O Não, não e não! e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade Não, absolutamente não! o substituem.

O Nem fodendo é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral?

Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo Marquinhos presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicinio.

Por sua vez, o porra nenhuma! atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um PHD porra nenhuma!, ou ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!. O porra nenhuma, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos aspone, chepone, repone e mais recentemente, o prepone - presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. / Pense na sonoridade de um Puta-que-pariu!, ou seu correlato Puta-que-o-pariu!, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer puta-que-o-pariu! dito assim te coloca outra vez em seu eixo.

Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso vai tomar no cu!? E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai tomar no olho do seu cu!. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus uando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: Chega! Vai tomar no olho do seu cu!.

Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios. /

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: Fodeu!. E sua derivação mais avassaladora ainda: Fodeu de vez!. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? Fodeu de vez!.

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se ...


http://www.dominiofeminino.com.br/editorial/opiniao/jan_foda_se.htm

domingo, 14 de março de 2010

Ser amante...

Muitas pessoas têm um amante, e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm, e as que tinham e perderam. Geralmente são estas últimas que vêem ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insónia, apatia, pessimismo, crises de choro, ou as mais diversas dores.
Elas contam-me que as suas vidas correm de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar o tempo livre. Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente a perder a esperança.
Antes de me contarem tudo isto, já tinham estado noutros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "Depressão"... além da inevitável receita do anti-depressivo do momento. Assim, depois de as ouvir atentamente, eu digo-lhes que elas não precisam de nenhum anti-depressivo. Digo-lhes que o que elas precisam é de um Amante!
É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem o meu conselho. Há as que pensam: "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa destas ?!". Há também as que, chocadas e escandalizadas, despedem-se e não voltam
nunca mais. Às que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico-lhes o seguinte: Amante é "aquilo que nos apaixona". É o que toma conta do nosso pensamento antes de adormecermos, e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir. O nosso Amante é o que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso amante no nosso parceiro, outras vezes, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no desporto, no trabalho, na necessidade de nos transcendermos espiritualmente, numa boa refeição, no estudo, ou no prazer obsessivo do nosso passatempo preferido...
Enfim, Amante é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir vivendo". E o que é "ir vivendo"? "Ir vivendo" é ter medo de viver. É vigiar a forma como os outros vivem, é o deixarmo-nos dominar pela pressão, andar por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastarmo-nos do que é gratificante, observar decepcionados cada ruga nova que o espelho nos
mostra, é aborrecermo-nos com o calor ou com o frio, com a humidade, com o sol ou com a chuva. "Ir vivendo" é adiar a possibilidade de viver o hoje
, fingindo contentarmo-nos com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.
Por favor, não se contentem com "ir vivendo". Procurem um amante, sejam também um amante e um protagonista da vossa vida... Acreditem que o trágico não é morrer, porque afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver, por isso, e sem mais delongas, procurem um amante.
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental: "Para se estar satisfeito, activo, e sentirem-se jovens e felizes, é preciso namorar a vida".

Texto: Dr. Jorge Bucay
Livro: "Hay que buscarse un Amante"

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Radiografia à alma

É aquela vontade súbita de agarrar em meia dúzia de peças de roupa, mais uns quantos acessórios de primeira necessidade e fazer-me à estrada. Acompanho cada palavra de quem partiu por longos dias, por paragens longínquas, e sou capaz se sentir os cheiros, os sabores, os aromas. Compreendo mesmo os que se encheram de coragem e partiram na companhia de si próprios. Não é egoísmo nem tão-pouco fugir do que quer que seja. É, antes, uma descoberta interior por via do contacto com outros mundos e outras gentes. E que falta isso me faz.
Por mim, seria agora mesmo. Desprender-me do conforto e viver cada dia no arame; sentir a fragilidade para conseguir ser mais seguro; andar na corda bamba para encontrar o equilíbrio; chorar para rir. A vida está a tranformar-se numa autoestrada que vamos percorrendo em modo piloto-automático. Qualquer dia, os acasos farão com que pisemos um atalho qualquer, de terra batida, e não sabemos sequer onde colocar os pés. Estamos cada vez mais amestrados. E isso não soa nada bem.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

É o nosso amor.

É o amor preto de tão queimado que está pelo fogo que arde.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

hoje vou fazer um post assim bem ao estilo do acatar, que é uma coisa que depois descrevo mais abaixo e o camandro

foda-se, não passa de hoje que eu vou fazer um post estilo acatar, que basicamente consiste em um gajo escrever, escrever, escrever e escrever, assim, sem pontos finais, e iniciar logo a prosa com letra minúscula que é só para chatear os puritanos e os broches que defendem mais a língua portuguesa do que as mãezinhas deles. e mesmo que eu faça pontos finais isso não interessa nada, pois os pontos não são nada a mais do que as minúsculas, e eis a razão porque também comecei esta frase com uma minúscula imediatamente a seguir ao pontozinho, está mesmo bem observado, não está?,

só que para isto ser perfeito eu tinha de colocar aqui uns impropérios do caralho, que é para o post ficar mesmo, mesmo, mesmo, mesmo parecido com o acatar, que é um blog feito por um tanso que, quando convida amigos para jantar em casa, não tem sequer cerveja em doses minimamente aceitáveis. se querem mesmo que vos diga, esse jantar pôs-me fodido da vida, até porque tinha sérias esperanças em ficar pelo menos com metade do recheio da casa, que é como quem diz 30 livros, nos quais se incluem o tal livro de âmbito comercial de 1909 ou lá o que era aquela merda. acho que já me estou mas é a alongar demais ou o caralho e é melhor pôr um ponto final nisto.

mas não sem antes dizer que o estilo acatar é-me familiar, juro que andei meses e meses a pensar nesta merda, e só cheguei a uma conclusão após ter passado por aqui, que é o blog do irmão lúcia. já sei que me vão dizer que o estilo não tem nada a ver e o caralho, mas a mim o panasca plagiador do acatar não me engana e a prova disso mesmo é o post que escolhi do irmão lúcia para dar consistência à minha tese.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Rua da saudade

No post abaixo, o digníssimo J. Madureira teve a bondade de ofertar umas palavras deliciosas, através de um comentário, que deixam qualquer bom garfo a salivar. Assim, sem apelo nem agravo, eis que a bela sardinha assada surge de rompante, a galope de um pão alentejano. Imagino-lhe (a sardinha) a entranhar-se nele (no pão), deixando um pequeno rasto com todo o sabor do mar. E lá está: a nostalgia. Sempre a nostalgia... Uma das melhores sardinhadas que comi (teria eu 7 ou 8 anos) aconteceu debaixo de duas figueiras centenárias, que faziam sobra à casa dos meus bisavós. Foi em pleno Verão, depois de uma manhã inteira dedicada à vindima. Ainda hoje, quando o cheiro da sardinha assada me invade as narinas, recordo esse momento (curto, mas intenso) com saudosismo. E surgem, por acréscimo, as saudades das tardes de Verão sem fim, das cabanas improvisadas à beira do riacho, os longos passeios de bicicleta onde se rodavam quilómetros e quilómetros...
Era uma vida saborosa - tão ou mais que a própria sardinha assada. Ainda hoje, quando posso, volto ao local onde já fui feliz. Resta-me a bisavó (95 anos...) e as duas figueiras. A casa desmoronou-se. O chão de piso duro deu lugar às ervas daninhas. À volta, nascem agora casas de gentes de outras paragens, saturadas da cidade. O betão armado cresce de dia para dia. E mal sabem eles que, ali, naquele pedaço de terra, já desfilaram muitas vidas. Parte de mim continuará sempre lá e certamente irá perdurar mais do que as figueiras. Deve ser por isso - só pode ser por isso - que, quando volto ao sítio onde cresci (dentro de uma pequena gaiola, pendurada num galho de uma das figueiras, segundo relatos da minha bisavó), sou assaltado por uma estranha melancolia. Antes assim. Tentarei que a minha filha, quando tiver a minha idade, tenha também um sítio onde regresse e veja que valeu a pena. Mesmo muito a pena.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

As marcas do tempo

O estalido da lenha que arde na lareira; a cafeteira com água para o café a aquecer no braseiro; o pão em riste, espetado num garfo, para ir torrando ao sabor do calor do braseiro; o velho transístor a captar a emissão radiofónica matinal, vinda de longe; um «até logo» ensonado dito ao avô e à avó; a estrada de terra percorrida na obsoleta bicicleta, companheira de toda uma infância, rumo à escola e a pisar o gelo que abafa a erva daninha junto à berma; os jantares de sábado em família; o frango do campo assado na brasa; a matança do porco durante dois dias, com tempo para a pesca e para a apanha de cogumelos selvagens; as festas na aldeia; o dia em que o circo vem à aldeia; as brincadeiras sem fim no dia em que a professora primária adoece; a vindima e os saltos no lagar noite adentro; a euforia das manhãs de Natal...
Uma imensa saudade do que já fui, daqueles que foram e de um tempo que já não volta.