domingo, 13 de junho de 2010

Carta sentimental aberta ao gajo com o melhor blogue do mundo (e que está em África)

NA FOTO: Muzi, cão africano fotografado pelo dono do Acatar. Caro 'Zhu di': se era para isto, mais valia teres ido ao canil da União Zoófila (ficava mais barato e davas algum glamour aos rafeiros nacionais).


CARTA ABERTA
Meu bom palhacinho: escrevo-te esta prosa em jeito de missiva sentimental. Porque sei que precisas de mim como o Michael Jackson precisava de propofol. Permite-me, pois, discorrer algumas dissertações sobre vários assuntos que tens abordado no teu blogue (e que acompanho religiosamente por estas bandas). Vamos por pontos:
1) acho piada quando jornalistas como tu (ainda por cima gente que estudou ao meu lado - e, por conseguinte, bem formada e inteligente) desancam na Fifa por causa da má organização da coisa e blá, blá, blá... O que estavam à espera? Champanhe à chegada? Bonbons Mon Chéri? Só digo isto: «África (do Sul)»;
2) também acho piada aos jornalistas que se queixaram dos assaltos e que ficaram todos ofendidos porque a Fifa não tomou medidas. Olha, nem vou mais longe: «só nos últimos 4 anos, foram assassinados quase 400 portugueses na África do Sul» (e onde estavam os jornalistas nessa altura? Nem mesmo sentados na secretária devem ter escrito uma linha sobre o assunto...);
3) não se queixem tanto e cumpram o vosso dever. Imagino que a missão não seja fácil (tal como deve ser difícil para a África do Sul estar ao leme de um evento desta dimensão). Este Mundial é isso mesmo: um desafio. Para todos os envolvidos. E cada um deles deve responsabilizar-se pela parte que lhe compete. No final, que se tirem as ilações;
4) as Festas do Granho são no penúltimo fim-de-semana de Julho. Se nesta altura estiveres em Portugal, verás com os teus próprios olhos como se organiza um evento cultural e desportivo. Com frango do churrasco a sério (grelhado no carvão). Até te dou a honra de dançares comigo, em pleno arraial...
...e deixa-te de escrever posts sobre as casas de banho. É uma faceta tua de George Michael que nós não queremos saber.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Éfe

Na guerra da vida contra a morte ganha sempre a segunda, por exaustão. Talvez tenha sido assim que F partiu, era um lutador, sempre o foi, desde miúdo. Lutou, sorridente, durante vários meses contra a sua inimiga, a leucemia. Creio que a via como uma brincadeira, coisa de putos, um desafio. Desde muito cedo que se habituou a vencer desafios. O pai emigrou e deixou-o sozinho com a mãe e as irmãs, único homem na casa, portador da responsabilidade de carregar o apelido da família e fazê-lo perpetuar, F agarrou-se à vida com garras de estivador e seguiu a direito, sem medo. Um dia, vi eu, pela manhã, bem cedo, levanta-se da cama e trata da sua higiene pessoal, toma o pequeno-almoço, pega na trouxa e sai para a escola, sozinho. Era uma criança, mas não precisava de ninguém, já era homem. Tinha 9 anos. Dono de um humor singular, era um aluno exemplar, tinha boas notas e era um desportista admirado por todos, foi, várias vezes, vencedor de provas regionais de BTT, vendia saúde.
Na sua aldeia, ao passar, F era cumprimentado por todos, novos e velhos, e a todos, sem excepção, era-lhes devolvido um sorriso afável, franco. Da última vez que o vi, sentado na cama articulada do IPO do Porto, mantinha no seu semblante o ar de quem nada deve à vida e sorria, como sempre sorriu. Estás bem puto? Perguntei. Sorriu. “Estou!” Respondeu sem desviar o olhar do pequeno computador portátil onde, atarefado, mantinha uma acérrima conversação via MSN com algumas amigas que, segundo ele, não o deixavam em paz. Está a correr bem, estás melhor? “Sim, falta-me fazer mais uma sessão de quimioterapia e depois acho que volto para casa”, disse ele com acentuada pronuncia nortenha e com aquele à-vontade de quem sabe como se lida com a doença. “Só me custa ver o meu pai chorar”.
A sua grandeza enquanto individuo, meio-homem/meio-criança que, enfermo, arranja forças para reconfortar os pais, as irmãs, os tios, as tias, primos, vizinhos e toda uma romaria de visitantes chorosos que vinham, aos magotes, à visita das quatro, é notória.
Lutou, lutou sempre. Sei que sim. Mas houve um momento em que desistiu, exausto, baixou os braços dormentes do esforço e parou de sorrir. A morte, nesse momento levou-o consigo, vitoriosa.
Deus, por certo, quis vê-lo sorrir…
Adeus Francisco.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Gula & luxúria

Há pessoas que, para cairem nas boas graças de Deus, estão dispostas a apreciar ao vivo as divagações em latim de um idoso de 83 anos - e que sempre foi incapaz de se referir à pedofilia como um crime, preferindo chamar-lhe «pecado». Os fiéis calam e consentem, admitindo a ideia de que o abuso de crianças por parte do clero (isto sim, um verdadeiro crime de «colarinho branco») é uma mera «fraqueza dos homens». O número de casos vindo a público diz tudo: não é fraqueza; é, antes, uma tara doentia, punível e que marca para sempre todo aquele que é abusado.
O Papa tem todo o direito de se fazer passear no seu «papamóvel» por onde bem quer e deseja. Não lhe concedo é o direito - posto em prática por terceiros (e onde se incluem os que nos governam) - de fazer de uma missa o supra-sumo da existência humana. Gastar rios de dinheiro neste tipo de festival, fechar escolas e decretar pontes é uma imposição disfarçada (e abençoada). É, em última instância, uma afronta aos princípios morais e religiosos de quem é crente de forma diferente. É atirar areia para os olhos, fazendo-nos esquecer, por momentos, que o país está a bater no fundo e que é administrado ruinosamente por uma trupe que enriquece à custa do esforço alheio.
E o que fazer para contrariar esta tendência vertiginosa? Nada. Fazer qualquer coisa, dá muito trabalho. O povo não está para isso e sempre é preferível ir à missa e ver as rugas de Sua Santidade. Preferimos viver na ilusão e sermos embalados pelos cântigos religiosos, com uma boa dose de hóstias a reconfortar o estômago e a limpar o cadastro dos pecados.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Invasão extraterrestre

Dois seres alienígenas invadiram-me a casa. Vieram de nave espacial lá de cima e, quando dei por mim, já estava no meio deles, sufocado pelas malas, malas, malas e o caralho. Lado positivo: ainda bem que não renovei a assinatura do canal porno. Senão, em vez de ficarem um mês ainda iriam permanecer durante meio ano. Vá lá que, pelo menos, trouxeram pão. Integral (agora que penso nisso, acham eles que eu estou gordo??). Foda-se.
Tenho a casa virada do avesso. Não bastavam já os brinquedos, livros e o camandro. Ainda tenho de levar com dois aliens. Será que cabem dentro do saco do aspirador? É melhor não - sob pena de ficar com o electrodoméstico danificado. Talvez se simular uma queda acidental pelas escadas do prédio...

terça-feira, 27 de abril de 2010

Foda-se! (é uma terapia, segundo os psicólogos)

Senão vejam...


O Foda-se!
de Millôr Fernandes

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional a quantidade de foda-se! que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se!? O foda-se! aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor.

Reorganiza as coisas. Me liberta. Não quer sair comigo?

Então foda-se!. Vai querer decidir essa merda sozinho (a) mesmo? Então foda-se!. O direito ao foda-se! deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Prá caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que Prá caralho? Prá caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas prá caralho, o Sol é quente prá caralho, o universo é antigo prá caralho, eu gosto de cerveja prá caralho, entende? No gênero do Prá caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso Nem fodendo!. O Não, não e não! e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade Não, absolutamente não! o substituem.

O Nem fodendo é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral?

Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo Marquinhos presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicinio.

Por sua vez, o porra nenhuma! atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um PHD porra nenhuma!, ou ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!. O porra nenhuma, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos aspone, chepone, repone e mais recentemente, o prepone - presidente de porra nenhuma. Há outros palavrões igualmente clássicos. / Pense na sonoridade de um Puta-que-pariu!, ou seu correlato Puta-que-o-pariu!, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer puta-que-o-pariu! dito assim te coloca outra vez em seu eixo.

Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso vai tomar no cu!? E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai tomar no olho do seu cu!. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus uando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: Chega! Vai tomar no olho do seu cu!.

Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios. /

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: Fodeu!. E sua derivação mais avassaladora ainda: Fodeu de vez!. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? Fodeu de vez!.

Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se ...


http://www.dominiofeminino.com.br/editorial/opiniao/jan_foda_se.htm

domingo, 14 de março de 2010

Ser amante...

Muitas pessoas têm um amante, e outras gostariam de ter um. Há também as que não têm, e as que tinham e perderam. Geralmente são estas últimas que vêem ao meu consultório para me contar que estão tristes ou que apresentam sintomas típicos de insónia, apatia, pessimismo, crises de choro, ou as mais diversas dores.
Elas contam-me que as suas vidas correm de forma monótona e sem perspectivas, que trabalham apenas para sobreviver e que não sabem como ocupar o tempo livre. Enfim, são várias as maneiras que elas encontram para dizer que estão simplesmente a perder a esperança.
Antes de me contarem tudo isto, já tinham estado noutros consultórios, onde receberam as condolências de um diagnóstico firme: "Depressão"... além da inevitável receita do anti-depressivo do momento. Assim, depois de as ouvir atentamente, eu digo-lhes que elas não precisam de nenhum anti-depressivo. Digo-lhes que o que elas precisam é de um Amante!
É impressionante ver a expressão dos olhos delas ao receberem o meu conselho. Há as que pensam: "Como é possível que um profissional se atreva a sugerir uma coisa destas ?!". Há também as que, chocadas e escandalizadas, despedem-se e não voltam
nunca mais. Às que decidem ficar e não fogem horrorizadas, eu explico-lhes o seguinte: Amante é "aquilo que nos apaixona". É o que toma conta do nosso pensamento antes de adormecermos, e é também aquilo que, às vezes, nos impede de dormir. O nosso Amante é o que nos mantém distraídos em relação ao que acontece à nossa volta. É o que nos mostra o sentido e a motivação da vida.
Às vezes encontramos o nosso amante no nosso parceiro, outras vezes, em alguém que não é nosso parceiro, mas que nos desperta as maiores paixões e sensações incríveis. Também podemos encontrá-lo na pesquisa científica ou na literatura, na música, na política, no desporto, no trabalho, na necessidade de nos transcendermos espiritualmente, numa boa refeição, no estudo, ou no prazer obsessivo do nosso passatempo preferido...
Enfim, Amante é "alguém" ou "algo" que nos faz "namorar" a vida e nos afasta do triste destino de "ir vivendo". E o que é "ir vivendo"? "Ir vivendo" é ter medo de viver. É vigiar a forma como os outros vivem, é o deixarmo-nos dominar pela pressão, andar por consultórios médicos, tomar remédios multicoloridos, afastarmo-nos do que é gratificante, observar decepcionados cada ruga nova que o espelho nos
mostra, é aborrecermo-nos com o calor ou com o frio, com a humidade, com o sol ou com a chuva. "Ir vivendo" é adiar a possibilidade de viver o hoje
, fingindo contentarmo-nos com a incerta e frágil ilusão de que talvez possamos realizar algo amanhã.
Por favor, não se contentem com "ir vivendo". Procurem um amante, sejam também um amante e um protagonista da vossa vida... Acreditem que o trágico não é morrer, porque afinal a morte tem boa memória e nunca se esqueceu de ninguém. O trágico é desistir de viver, por isso, e sem mais delongas, procurem um amante.
A psicologia, após estudar muito sobre o tema, descobriu algo transcendental: "Para se estar satisfeito, activo, e sentirem-se jovens e felizes, é preciso namorar a vida".

Texto: Dr. Jorge Bucay
Livro: "Hay que buscarse un Amante"

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Radiografia à alma

É aquela vontade súbita de agarrar em meia dúzia de peças de roupa, mais uns quantos acessórios de primeira necessidade e fazer-me à estrada. Acompanho cada palavra de quem partiu por longos dias, por paragens longínquas, e sou capaz se sentir os cheiros, os sabores, os aromas. Compreendo mesmo os que se encheram de coragem e partiram na companhia de si próprios. Não é egoísmo nem tão-pouco fugir do que quer que seja. É, antes, uma descoberta interior por via do contacto com outros mundos e outras gentes. E que falta isso me faz.
Por mim, seria agora mesmo. Desprender-me do conforto e viver cada dia no arame; sentir a fragilidade para conseguir ser mais seguro; andar na corda bamba para encontrar o equilíbrio; chorar para rir. A vida está a tranformar-se numa autoestrada que vamos percorrendo em modo piloto-automático. Qualquer dia, os acasos farão com que pisemos um atalho qualquer, de terra batida, e não sabemos sequer onde colocar os pés. Estamos cada vez mais amestrados. E isso não soa nada bem.