segunda-feira, 23 de agosto de 2010

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Dentro de mim

A melancolia é a minha pátria; a tristeza o meu hino. Há dias assim. Por tudo e por nada. Às vezes, por bem menos do que aquilo que julgamos a mais. E, outras vezes, por mais do que convém. Não há meio termo [é como a vida: ou se vive ou se morre]. Nem sempre existe uma razão para o que quer que seja. E há alturas em que as razões só aparecem para justificar o que não existe. Andamos nós, na estrada da vida, sem olhar ao peão que nos passa ao lado. Arrancamos, paramos, aceleramos. O mundo está em piloto automático. Temos medo de o guiar [e preferimos que seja ele a guiar-nos]. Não passamos de um bando de cordeirinhos. E caminhamos, assim, de mansinho.
Inventamos medos. Metemo-nos dentro da câmara. E ainda abrimos a torneira do gás. Estamos tão anestesiados que nem lhe sentimos o cheiro. Arrancamos, paramos, aceleramos [enquanto os dias nos corroem a alma]. Repara só como um bom momento passa depressa. E, quando nem sequer acabou, já estamos a pensar que não perdurará para sempre. Porque o sofrimento está no nosso ADN; porque a saudade não está somente no dicionário - ela também percorre-nos as veias.
Sabes que a alegria também pode ser triste? Mas a tristeza, essa, nunca é alegre. Não sei se estou certo ou errado. Se queres que te diga, nem penso nisso. Apenos vivo. E, nos dias de hoje, isso já é muito mais do que aquilo que julgamos ser menos. Admito que ainda estou a tirar o brevet. No entanto, é um passo. Mesmo que o mundo siga em piloto automático, irei voar para outro lado. Acompanhas-me?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Pátria

Gloria, gloria, corona de la Patria,
soberana luz
que es oro en tu Pendón.

Vida, vida, futuro de la Patria,
que en tus ojos es
abierto corazón.

Púrpura y oro: bandera inmortal;
en tus colores, juntas, carne y alma están.

Púrpura y oro: querer y lograr;
Tú eres, bandera, el signo del humano afán.

Gloria, gloria, corona de la Patria,
soberana luz
que es oro en tu Pendón.

Púrpura y oro: bandera inmortal;
en tus colores, juntas, carne y alma están.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Canções que vão, letras que ficam...


Fria a noite cai, severamente sai, guitarra na mão
Água e mel na voz, seguramente vai pelas pedras do chão
Formosa, mata a paz com o seu trinar
E dizem, tocando, que leva a voar
Em asas que as cordas dão, todo e qualquer gingão
Meu fado é sua canção

Canta por mim – diva da rua, não és de ninguém
Só ris negando a quem te quer bem
Canta por mim também

Canta por mim, dona do mundo
em noites fatais
Deixa-me
os olhos castanhos banais
Pobre, que não olhas que eu amo mais

Fria a noite cai, severamente sai guitarra na mão
Água e mel na voz, seguramente vai pelas pedras do chão
Formosa, mata a paz com o seu trinar
E dizem, tocando que leva a voar
Em asas que as cordas dão, todo e qualquer gingão
Meu fado é sua canção

Canta por mim, dona do mundo
em noites fatais
Deixa-me
os olhos castanhos banais
Pobre, que não olhas que eu amo mais

Canta por mim – diva da rua, não és de ninguém
Só ris negando a quem te quer bem
Canta por mim também

Canta por mim, dona do mundo
em noites fatais
Deixa-me
os olhos castanhos banais
Pobre, que não olhas que eu amo mais


(«Canta por mim», Carlos Coelho)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

E num instante tudo muda

Partes de uma vida suspensas por breves segundos. Bastou um olhar (despropositado) para parar o mundo e (re)ver cada peça do puzzle (mesmo depois de ele, há muito, estar desmontado e arrumado). Se este momento fosse planeado, jamais seria tão perfeito - tal como o conjunto do puzzle, de resto. Julgamos que a imagem que figura no puzzle já passou à história, está desactualizada, é insignificante. Pensamos que a pauta, mesmo sem a tal nota musical, pode ser tocada. Porque, sendo ouvida (e não vista), a música acaba por ser apreciada, sem repararmos na ausência da nota. É mentira. Não é possível iludir os ouvidos quando apenas se fecham os olhos.

O absurdo da situação ganha ainda mais importância (reparaste como não hesitei em recorrer ao termo 'importância'?) quando me fazes (re)ver o puzzle por uma segunda vez. Aqui e ali, tu e eu, separados por breves passos. Se não me tivesses lembrado do primeiro momento, isto quase que me soava a 'deja vu'. Mas não. Só (também) neste segundo (tal como no primeiro) instante, estivemos tão perto e tão longe. Mais estúpido é saber que nada disto faz sentido...

...porque isto é conversa que não nos leva (nunca nos levou) a lado nenhum. Como podemos nós voar se insistes, durante toda a viagem, em pensar no trem de aterragem? O problema foi que, mesmo antes da casa de destino, nunca paraste de pensar na casa de partida. O jogo estava viciado desde o início. E como eu gostava de o jogar. Não por o jogo - no verdadeiro sentido do termo - ser a minha predilecção. Mas antes porque eu, um peão à deriva, te olhei como uma rainha. Como seria se estivéssemos hoje, lado a lado, no mesmo tabuleiro?...

domingo, 13 de junho de 2010

Carta sentimental aberta ao gajo com o melhor blogue do mundo (e que está em África)

NA FOTO: Muzi, cão africano fotografado pelo dono do Acatar. Caro 'Zhu di': se era para isto, mais valia teres ido ao canil da União Zoófila (ficava mais barato e davas algum glamour aos rafeiros nacionais).


CARTA ABERTA
Meu bom palhacinho: escrevo-te esta prosa em jeito de missiva sentimental. Porque sei que precisas de mim como o Michael Jackson precisava de propofol. Permite-me, pois, discorrer algumas dissertações sobre vários assuntos que tens abordado no teu blogue (e que acompanho religiosamente por estas bandas). Vamos por pontos:
1) acho piada quando jornalistas como tu (ainda por cima gente que estudou ao meu lado - e, por conseguinte, bem formada e inteligente) desancam na Fifa por causa da má organização da coisa e blá, blá, blá... O que estavam à espera? Champanhe à chegada? Bonbons Mon Chéri? Só digo isto: «África (do Sul)»;
2) também acho piada aos jornalistas que se queixaram dos assaltos e que ficaram todos ofendidos porque a Fifa não tomou medidas. Olha, nem vou mais longe: «só nos últimos 4 anos, foram assassinados quase 400 portugueses na África do Sul» (e onde estavam os jornalistas nessa altura? Nem mesmo sentados na secretária devem ter escrito uma linha sobre o assunto...);
3) não se queixem tanto e cumpram o vosso dever. Imagino que a missão não seja fácil (tal como deve ser difícil para a África do Sul estar ao leme de um evento desta dimensão). Este Mundial é isso mesmo: um desafio. Para todos os envolvidos. E cada um deles deve responsabilizar-se pela parte que lhe compete. No final, que se tirem as ilações;
4) as Festas do Granho são no penúltimo fim-de-semana de Julho. Se nesta altura estiveres em Portugal, verás com os teus próprios olhos como se organiza um evento cultural e desportivo. Com frango do churrasco a sério (grelhado no carvão). Até te dou a honra de dançares comigo, em pleno arraial...
...e deixa-te de escrever posts sobre as casas de banho. É uma faceta tua de George Michael que nós não queremos saber.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Éfe

Na guerra da vida contra a morte ganha sempre a segunda, por exaustão. Talvez tenha sido assim que F partiu, era um lutador, sempre o foi, desde miúdo. Lutou, sorridente, durante vários meses contra a sua inimiga, a leucemia. Creio que a via como uma brincadeira, coisa de putos, um desafio. Desde muito cedo que se habituou a vencer desafios. O pai emigrou e deixou-o sozinho com a mãe e as irmãs, único homem na casa, portador da responsabilidade de carregar o apelido da família e fazê-lo perpetuar, F agarrou-se à vida com garras de estivador e seguiu a direito, sem medo. Um dia, vi eu, pela manhã, bem cedo, levanta-se da cama e trata da sua higiene pessoal, toma o pequeno-almoço, pega na trouxa e sai para a escola, sozinho. Era uma criança, mas não precisava de ninguém, já era homem. Tinha 9 anos. Dono de um humor singular, era um aluno exemplar, tinha boas notas e era um desportista admirado por todos, foi, várias vezes, vencedor de provas regionais de BTT, vendia saúde.
Na sua aldeia, ao passar, F era cumprimentado por todos, novos e velhos, e a todos, sem excepção, era-lhes devolvido um sorriso afável, franco. Da última vez que o vi, sentado na cama articulada do IPO do Porto, mantinha no seu semblante o ar de quem nada deve à vida e sorria, como sempre sorriu. Estás bem puto? Perguntei. Sorriu. “Estou!” Respondeu sem desviar o olhar do pequeno computador portátil onde, atarefado, mantinha uma acérrima conversação via MSN com algumas amigas que, segundo ele, não o deixavam em paz. Está a correr bem, estás melhor? “Sim, falta-me fazer mais uma sessão de quimioterapia e depois acho que volto para casa”, disse ele com acentuada pronuncia nortenha e com aquele à-vontade de quem sabe como se lida com a doença. “Só me custa ver o meu pai chorar”.
A sua grandeza enquanto individuo, meio-homem/meio-criança que, enfermo, arranja forças para reconfortar os pais, as irmãs, os tios, as tias, primos, vizinhos e toda uma romaria de visitantes chorosos que vinham, aos magotes, à visita das quatro, é notória.
Lutou, lutou sempre. Sei que sim. Mas houve um momento em que desistiu, exausto, baixou os braços dormentes do esforço e parou de sorrir. A morte, nesse momento levou-o consigo, vitoriosa.
Deus, por certo, quis vê-lo sorrir…
Adeus Francisco.