domingo, 24 de abril de 2011

Outros rostos da Revolução

Uma imagem vale (muito) mais do que mil palavras. Por vezes, o seu maior valor está naquilo que lá está (mas que permanece invisível aos olhos de quem vê). Chama-se «memória histórica» (algo que já não existe nas redacções deste país).
O 'guitarrista' que aparece destacado nesta foto dá pelo nome de Rui Pato. Integrou o Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) em 2005. Deixou o cargo em finais de 2009. Antes disso, dirigiu o Serviço de Pneumologia. Feitas as contas, Rui Pato esteve no CHC (onde começou como médico interno) durante 37 anos. Em suma: uma vida.

Agora, o 'outro lado': Rui Pato percorreu o país, de concerto em concerto, ao lado de Zeca Afonso. Conheceram-se em Mangualde, quando Zeca ganhava a vida a dar aulas. A aventura da música de intervenção terá começado em meados de 1960, tendo terminado uns 8 anos depois.
Muito depois disso - e pela última vez -, Rui Pato pegou na viola, a pedido do próprio Zeca. Foi num espectáculo no Coliseu, que decorreu meses antes da morte do autor de «Grândola, Vila Morena» (em Fevereiro de 1987).


Eis Zeca Afonso descrito por Rui Pato:


«O Zeca sempre teve fama de maluco. Aconteciam-lhe coisas estranhíssimas e a mais vulgar era andar com uma meia de cada cor. Trazia sempre um saco de remédios. Uns para dormir, outros para acordar. À noite enfiava calmantes e, de dia, estimulantes.»


«Tinha também o hábito da vitamina C. Quando chegava à gravação dizia que não tinha voz e tomava uma injecção de vitamina C para 'aclará-la'.»


«O Zeca punha sempre dificuldades nas gravações. Às vezes, dizia que não fazia a digestão. Um dia, propus-lhe uma refeição leve. Comemos um ovo estrelado.»


[Depoimentos extraídos da obra Livra-te do Medo: estórias e andanças do Zeca Afonso, de José A. Salvador]

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Melodia

Chegado a meio da rua, o velho negro pousou os sacos no cimo do passeio. O dia ia longo. O fato de macaco - impregnado de estilhaços de cimento já secos e sólidos - denunciava a sua ocupação principal. Lançou um suspiro e esticou os dedos. Baixou-se, abriu uma caixa de madeira e tirou o objecto brilhante (que reluzia como ouro). Quem lhe apreciasse os gestos poderia notar que eram devidamente estudados.
Todos pareciam ignorar a sua presença. Até que, de olhos cerrados, ergueu a cabeça em direcção ao céu, dando a sensação que procurava inspiração divina. De repente, todos pararam. Fez-se silêncio. Para ver e ouvir. Um velho negro, um saxofone e um talento do tamanho do mundo. Não há palavras que descrevam a sinfonia melódica do homem que só sabe tocar de olhos fechados; que nunca estudou música; e que apenas pede algumas moedas em troca da sua arte imensa.
Quase sempre, tenta esquivar-se à curiosidade alheia. «Não interessa de onde vim nem quem fui; somente onde estou e quem sou», diz. Assim sendo, quem és tu? «Um velho. Nada mais do que isso. Mas tenho uma grande alma: o meu safoxone». E onde estás? «Em todos os lugares que as pessoas imaginam, quando ouvem as minhas melodias». O saxofone, o velho negro e o seu enorme talento andam por aí, nas ruas de Lisboa.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Eu aderi, tu aderiste e até ele aderiu

Contra todas as previsões e expectativas, M. (chamemos-lhe assim) impôs a si próprio um objectivo de vida: aderir ao Facebook. «Decisão banal», dir-me-ão os mais sensibilizados para estas questões das novas tecnologias e redes sociais; «já sabia que ias falar dessa merda, ó caralho», barafustará M., naquele tom 'bovino' que tão bem o caracteriza (na verdade, M. conseque ser mais embezerrado do que eu - ainda assim, gosto do cromo).
Primeira conclusão: no domínio do mundo virtual, M. consegue atrair todas as más vibrações possíveis e imaginárias, fazendo com que mesmo as aplicações mais óbvias deixem, simplesmente, de funcionar. Só assim se consegue explicar que, no espaço de poucas horas - após a criação do seu perfil - M. tenha ficado encurralado. M. fez dois ou três amigos e, num abrir e fechar de olhos, o sistema não o deixou remeter pedidos de amizade. Será o Facebook uma ferramenta assim tão avançada que, na verdade, sabe que é improvável que M. tenha amigos num número que vá para além dos dois dígitos? Fica a dúvida.

Em todo o caso, o mundo deve registar tamanha façanha. Numa altura em que atravessamos um momento apocalíptico (já não adianta mudar a fechadura, pois o FMI já nos entrou pela casa adentro), Portugal pode orgulhar-se, agora, de ter todos os seus cidadãos ligados ao Facebook. M. acabou por concretizar, em poucos minutos, aquilo que ponderou durante longos meses. Um pequeno 'clic' para M., um grande passo para a irradicação da iliteracia digital no país.

Todavia, aconselha-se alguma prudência. Os próximos dias vão ser decisivos para M., que ficou impossibilitado de fazer amigos durante, pelo menos, 48 horas. O facto de não ter tido uma entrada triunfante nos meandros do Facebook e de levar com um tipo a 'reinar' sobre o assunto (como, de resto, este post comprova) poderão significar um retrocesso na decisão histórica de M. (que, no seu blog pessoal, também já sente na pele a ânsia de algumas pessoas de serem suas 'amigas').

Mas aconteça o que acontecer, M. mostrou o seu lado meiguinho. Só por ter aderido ao Facebook. Colapsou o sistema, é certo, mas colocou de lado o seu orgulho e juntou-se à manada. Por este e outros motivos, só tenho razões para gostar de M. Adoro-te.

quarta-feira, 30 de março de 2011

No reino da 'alucinolândia'

Não contesto o direito dos trabalhadores à indignação - até mesmo dos funcionários de empresas públicas. Só por aqui dá para ver que sou um tipo sensível e tolerante (capaz, até, de defender os interesses - ou uma pequena parte deles - dos trabalhadores das companhias dotadas de capitais públicos). Mas há limites. Sobretudo quando a criatividade estagna. A paralisação da CP e do Metro, em concreto, são formas de luta do século passado (e que apenas prejudicam os passageiros - a razão de ser dos transportes colectivos). É a velha mentalidade: «vamos lá foder o dia ao utente, para ver se o povo fica aborrecido e os miseráveis dos governantes arrepiam caminho». Há meses consecutivos que os sindicatos ligados à CP e ao Metro convocam greves atrás de greves. São muitos dias a foderem a vidinha a quem paga o seu título de transporte na totalidade.
Estas birras mesquinhas reflectem todo o egoísmo individual da mentalidade de uma certa esquerda (haverá mais do que uma?). Torna-se assustador quando esta gente se reúne em manada, agindo de forma colectiva. Pensam que são espertos, mas só 'avacalham' (ainda mais) o sistema - ao ponto de, por exemplo, elegerem políticos como Sócrates, em troca de promessas da manutenção dos direitos adquiridos. Pior: adoram repetir o erro.

Estas 'toupeiras andantes' não percebem (ou fingem não perceber) que trabalham em empresas públicas falidas, cujo prejuízo adensa-se a cada dia que passa. Reclamam regalias de luxo, auferem salários fora do comum e laboram menos horas semanais do que os restantes trabalhadores portugueses. Não sabem o que é trabalhar numa empresa privada, sem direito à contestação e sujeitando-se ao pão que o diabo amassou. As paralisações sucessivas só abonam a favor das privatizações. Uma ideia, aliás, que vai tomando forma (já deu para perceber que, com Passos Coelho e o FMI a comandarem os destinos deste país, a privatização de empresas como a CP e o Metro são um belo rebuçado). Os abutres também se abatem. E alguns deles até ajudam a cavar a sua própria sepultura.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Lembras-te da Rosinha? Pois bem: podia ser (muito) pior

1989. Anunciava-se uma autêntica revolução na aldeia, com a actuação de Jorge Rocha & as Lipstick. Nunca ninguém tinha ouvido falar no rapaz e nas tipas que o acompanhavam, mas os cartazes - distribuídos massivamente pelos locais públicos (centro de saúde incluído) - faziam antever uma noite de Verão escaldante.
Corria o boato de que, a meio da actuação, as acompanhantes de Jorge Rocha iriam despir-se integralmente. Na noite do espectáculo, novos e velhos apinharam-se no recinto, mesmo antes do sol se pôr, para assegurarem o melhor lugar (de pé). Recordo-me particularmente de um velhote, dado como desaparecido há dois anos - e que, misteriosamente, reapareceu. Precisamente naquela noite.
Não é fácil responder à questão «Quem é Jorge Rocha?». É uma explicação complexa, que requer alguma reflexão. Ainda assim, cá vai: Jorge Rocha começou a ganhar a vida como bailarino. Cresceu, meteu na cabeça que queria ser cantor - e, vai daí, gravou umas músicas maradas, com a voz completamente desafinada (e com um modo peculiar de articular as palavras - um misto entre a dislexia e o sotaque transmontano). As acompanhantes não sabiam cantar. Mas, naquela altura, o playback fazia escola.
Elas só tinham de mostrar as nádegas, eriçar as mamas e abanar o corpinho. Não importava se faziam de conta que estavam (ou não) a cantar; a região bucal era, em todo o conjunto anatómico, a menos observada pela assistência. Ao longo dos anos, foram várias as formações das Lipstick: Candy, Dora, Diesel, Eliane... Até nisto o grupo era original, ao conseguir integrar gajas com nomes de electrodoméstico e combustível.

Volvidos mais de 20 anos, onde pára Jorge Rocha? Hoje, o tipo chama-se Jorge Martinez, abandonou as Lipstick (embora se faça acompanhar, em palco, por duas quarentonas de cabelo oxigenado) e diz que é o Prince português. Apesar da dupla personalidade, há coisas no Jorge Martinez que ficaram do Jorge Rocha: as músicas maradas, a voz desafinada e histérica, a forma estranha de pronunciar as palavras. Todavia, Jorge Martinez é um verdadeiro 'performer' e o único artista português que, ainda hoje, faz videoclips ao estilo do século passado. Atentemos, pois, ao espectáculo que é este vídeo referente ao 'single' mais recente do artista.

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O Ferrari sempre a rasgar e a atirar gravilha pelo ar; o pormenor de 'Martinez' na chapa de matrícula (eu pagava para ver este gajo a ser catado pela Brigada de Trânsito); a brilhante componente estética, onde sobressaem os elementos terra e fogo; a gaja metida na banheira, com o leite (?) a escorrer-lhe pelo peito... Tony Carreira? Deixemo-nos de merdas. O mundo pertence a Jorge Martinez. Nem que sejam precisos mais 20 anos para este gajo dar nas vistas - mas há-de conseguir. Também ajuda se as pessoas estiverem dispostas a tapar os ouvidos e a fingirem que ouvem (e gostam) daquela voz. Descoordenada. E esganiçada.
Vale a pena ir ao encontro deste universo paralelo. Aqui.

Rezemos

A minha religião chama-se Acatar e Zhu Di é o meu deus. Comecei por frequentar timidamente este digníssimo templo virtual e, hoje, não passo um único dia sem o visitar. É a prova, de resto, de que ninguém deve ser julgado pela aparência (Zhu Di tem, de facto, um aspecto físico duvidoso e, quanto balança o corpo, nota-se que há ali qualquer coisa a roçar a paneleirice). Mas avante. O que importa é toda a sapiência e o bom gosto (como demonstra este post) que prolifera em Zhu Di. Alimenta-nos a alma com imensos posts, a um ritmo inimaginável e frenético. Num só dia, o homem é capaz de abordar assuntos tão díspares como Sócrates, Benfica e Carnaval. A panóplia de imagens, acompanhadas pelos takes da AFP, também nos faz delirar. Eu sei que, ao ler estas linhas, Zhu Di irá pensar: «foda-se, mas que caralho, lá está este paneleiro de merda a foder-me a cabeça, ó caralho» (sim, Zhu Di tem um vocabulário extensamente rico e é muito franco no que diz). Todavia, é de bom tom o 'Espiríto do Asfalto' (ou, no original, 'Street Spirit') reconhecer e distinguir os melhores criativos do universo da blogosfera. Naturalmente, poderia acrescentar muito mais sobre Zhu Di. O seu passado, por exemplo, reflecte o carácter solidário que sempre vincou a sua personalidade. Basta lembrar que, durante anos a fio, Zhu Di voluntariou-se a servir copos no 'Finalmente', sem pedir nada em troca (desde que houvesse clientela para apreciar, claro). Porque, em boa verdade, Zhu Di não deixa passar nada ao lado. Nem mesmo um bom homem de collants ou ganga justa.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ficção e realidade: o mundo segundo a Pfizer

«O Amor é o Melhor Remédio» («Love and Other Drugs», no título original) estreou nos EUA em finais de 2010 e, há pouco mais de um mês, chegou a Portugal. Está enquadrado na paupérrima categoria de comédia romântica, com indicação para M/12 (o que é minimamente estranho, dadas as cenas de sexo em abundância - o que leva a questionar a competência desta gente). Mas há uma pergunta intrigante: como é que um filme destes, inequivocamente dirigido às massas (e para consumo imediato, sem nos obrigar a pensar em demasia), passa despercebido na Europa? Comecemos por desvendar a sinopse oficial da obra...

"Maggie é um fascinante espírito livre que não permite que nada a prenda, nem mesmo um fascinante desafio pessoal. Mas conhece a sua cara-metade em Jamie Randall, cujo charme é quase infalível tanto com as senhoras como com as vendas de produtos farmacêuticos. A evolução da relação entre Maggie e Jamie apanha-os de surpresa, ao darem conta de estarem sob a influência da derradeira droga: o amor..."

À primeiro vista, «O Amor é o Melhor Remédio» não passa de uma «comédia romântica» igual a tantas outras, recheada de clichés, com diálogos previsíveis e cenas lamechas. O filme perfeito, portanto, para uma tarde chuvosa, no aconchego dos cobertores, em que apenas pretendemos aliviar a cabeça de toda a merda que nos percorre o cérebro.
Todavia, esta é uma obra que nos faz pensar - sobretudo aos que se querem dar um pouco a esse trabalho. Porque envolve uma empresa farmacêutica real (Pfizer) e uma personagem (Jamie Randal) que, neste universo ficcional, vende produtos igualmente reais (começa no Zoloft e acaba no Viagra). Jamie, o delegado de informação médica, chega mesmo ao ponto de convencer os médicos a não prescreverem Prozac (de uma empresa concorrente).
Os mais incautos perguntarão: e quanto pagou a Pfizer para aparecer no filme? A questão, no entanto, deve ser invertida: quanto recebeu a Pfizer para se sujeitar a isto? Os esquemas de vendas que apenas visam o lucro (driblando as recomendações da FDA), o treino «agressivo» dos delegados de informação médica, a forma pouco ortodoxa como se dá cabo de um fármaco da concorrência, a promiscuidade entre empresas farmacêuticas e médicos, o «outro lado» dos congressos científicos (há mesmo um especialista que chega a injectar-se com testosterona, para aguentar a «vida social» de um Congresso anual, em Chicago)... Há diálogos verdadeiramente assustadores. É assumido que este filme foi feito a partir da autobiografia de Jamie Reidy, autor de «Hard Seel: The Evolution of a Viagra Salesman» - e que, antes de sair de cena da indústria farmacêutica, desempenhou funções na Pfizer e na Lilly. A legitimidade de nos sujeitarem a tamanho descaramento é, no entanto, questionável. Porque - e mesmo que a Pfizer não seja tudo aquilo que realmente se vê no filme -, a verdade é que eu, enquanto consumidor, coloco (ainda mais) dúvidas sobre o funcionamente (pouco digno) deste mercado peculiar. Nem sempre a ficção é tão ficcionada quanto se possa pensar; por vezes, ela consegue ser perigosamente real.