domingo, 21 de junho de 2009

David

A maior lição de vida não tem residência fixa e chama-se David. Encontrei-o há dias, quando me fazia acompanhar por T., junto à entrada do metro do Marquês de Pombal. Eu e T. tivémos o instinto de nos sentarmos num poiso de pedra trabalhada, aproveitando o vento brando fresco empurrado pela sombra. David parou. Pediu um cigarro. À primeira vista, nada fazia denunciar que fosse diferente de tantos outros sem abrigo que desfilam pela cidade de Lisboa. «Posso falar com vocês?», perguntou.

David pediu desculpa pela intromissão. Avisou que era inteligente. E, permanecendo sempre imóvel, fez uma incursão pelo seu passado, numa lição de vida que, tão depressa, eu e T. não iremos esquecer. Disse que já teve tudo na vida. Conheceu a luxúria (ouvia sistematicamente a mãe dizer que tinha perdido 7 mil contos no casino...), teve um filho, divorciou-se, fez-se refém da droga («mas não eram desses químicos que queimam a mente. Continuo a ser inteligente...»). Agora, a vida de David cabe nos dois sacos, com pequenas utilidades, que o acompanham para todo o lado.

David não lamenta a sua condição. Em vez disso, assume-se como alguém que deposita toda a sua fé em Deus («é Ele que me guia e que me dá forças. Todos os dias»). David tem o dom da palavra. Usa-a como poucos. E é, de facto, inteligente. Ao olharmos para David, enquanto fala, é fácil imaginá-lo de fato e gravata, bem sucedido, pai da família. Tanto disserta sobre a Europa como cita os nomes dos responsáveis de altos cargos públicos. Num dado momento, David traçou o perfil de José Sócrates. «Ele também é inteligente. Mas perdeu todo o carácter honesto. Sabe mentir. Deixou-se levar pelo desejo do poder. É um político igual a tantos outros», disse. David acredita que seria capaz de escrever um livro melhor do que qualquer obra de Saramago («o nosso Nobel da Literatura não sabe ser humilde. Lembram-se quando chegou ao aeroporto, em Portugal, e maltratou todos os jornalistas? Foi triste», confessou). David chegou a ter dezenas de páginas dactilografadas, que compilavam aquele que poderia muito bem ser o livro da sua vida. Mas rasgou-as («não ia longe... Não conheço ninguém que trabalhe numa editora»).

No final da conversa, pediu desculpa. Reconheceu que falou muito. Fez mesmo questão de nos acompanhar à entrada do Metro, poupando o silêncio e nunca deixando de partilhar a sua sabedoria. Chegou a recordar o tempo que passou no Curry Cabral, nas consultas de Psiquiatria com o António Lobo Antunes («é um tipo extremamente inteligente. Esse sim, pode dizer que é um verdadeiro escritor. Bem melhor do que qualquer um. Melhor, até, do que o Saramago...»). O universo, comparado com a ciência de David, é demasiado redutor e pequeno. David tem uma personalidade desmedida e uma sensibilidade que nos faz cócegas na alma.

Na viagem de regresso, os ensinamentos de David constituiram, para mim e para T., o passaporte para um momento peculiar de reflexão. Não faltaram coincidências: na carruagem do Metro, um passageiro, ao nosso lado, lia o livro «Sinto Muito», de... Nuno Lobo Antunes. E um amigo nosso, no blog pessoal, tinha dedicado o post diário a Sócrates e... à inteligência. Sinais ou pura coincidência? David terá, certamente, algo a dizer sobre isto...

1 comentário:

Laurinda Alves disse...

Muito bom este post. Muito obrigada por partilhar e contribuir para transformar o nosso olhar sobre os outros e o mundo à sua/nossa volta. Abraço! Laurinda